quarta-feira, 30 de novembro de 2011 0 comentários

O último dia do mês




O último dia do mês, é aquele dia em que ficamos com um sorriso estúpido nos lábios e pensamos: UAU! Um mês passou e chega finalmente a nossa recompensa: O salário, a remuneração, nalguns casos até se pode chamar de indemnização. «Tome lá a sua “indemnizaçãozinha” mensal referente a todos os atentados à sua inteligência e sentimentos, ocorridos este mês. Sossegue, amanhã há mais!» (entenda-se, estupidez, não indemnização). Infelizmente, o final deste mês foi igual a tantos outros. Ao consultar a minha conta bancária, deparei-me com um valente zero! Senti-me como o Carlos Ribeiro no sorteio do totoloto! «…e finalmente o suplementar, o zero» Assim como o senhor do Júri dos concursos, apeteceu-me também dizer que o zero aqui não entra, tire outro número. Mas o raio da conta insistia. Era mesmo zero, nicles, niente, nada, ‘tás lixada.

Nesta altura, segue um jogo de apostas paralelo, entre os funcionários da empresa. Uma rude adaptação do pedra-papel-tesoura, chamada banco-gerência-software, sendo que, à semelhança do original, o banco ganha ao software, porque a última intervenção é a sua, o software ganha à gerência, porque mesmo que esta tivesse bem-intencionada, o software tem o dom de pifar nos momentos cruciais, a gerência, ganha ao banco porque consegue, se assim o desejar, embrulhar o banco, e suspender as transferências. O problema nestas apostas, é que devido ao facto de não termos recebido o salariozinho, os prémios são muito fraquinhos.

Mas há que ter pensamento positivo, é mandá-los àquela parte, mas em linguagem binária, que é para vermos muitos zeros, e não ficarmos tão desconsolados.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011 0 comentários

A derrota do clube de futebol é um chuto no busílis da boa disposição

(C) Darren Robb

Todos os dias recebemos no escritório e-mails inúteis. O problema é que estes não vêm de fora, são internos. Longe vai a ideia de que motivar os funcionários desta empresa a torna mais produtiva.

O clube de futebol do Costinha perdeu ontem. Numa espécie de beicinho carrancudo, entra no escritório como se todos estivessem em dívida para com ele.

Hoje está proibida a manifestação de alegria no escritório e mal de quem tenha vestido as cores do adversário. Faço enviar/receber no Outlook e lá está, uma nova lista de regras desnecessárias que devem ser rigorosamente cumpridas pelos seus colaboradores. 
segunda-feira, 14 de novembro de 2011 0 comentários

Se a guerra viajasse entre e-mails, certamente pouparíamos mais árvores

(C) Tim Robberts

Rapidamente dirijo-me à casa de banho. Não que tenha realmente urgência em utilizá-la, mas preciso de um momento. Um momento de reflexão, ou melhor, de consciencialização. Chegou a hora de “meter” a minha personalidade no saco e vestir o fato de guerreira. Olho-me no espelho a jeito de despedida, e vejo o meu reflexo a proferir um “força miúda” e a piscar-me um olho. Enlouqueci, penso, e saio da casa de banho com um sorriso estampado nos lábios.
Ligo o computador, o meu olhar desvia-se imediatamente para o relógio, no canto inferior direito do monitor. Nove horas em ponto. A imagem de uma ampulheta gigantesca atravessa-me o pensamento. São oito horas de areia. Oito horas de gritos, de total ausência de bom senso e de atitudes que teimam em beirar o ridículo. Antes de mergulhar no trabalho, faço um último apelo à padroeira da EDP. Dá-nos descanso, só hoje. Nada. Continua tudo na mesma.
Abro o meu correio electrónico, e lá estão vinte e três lindas, e decerto maravilhosas, mensagens por ler, algumas das quais enviadas durante o fim-de-semana. Não preciso sequer de ver quem as remete. É óbvio. O Costinha não tem vida própria.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011 0 comentários

A família e os amigos no escritório

Faziam de conta que não se conheciam. Iniciavam conversas de ocasião como se desconhecessem as respostas às perguntas que faziam, dando-se ao trabalho de recriar o factor surpresa estampado no rosto. Curiosamente a expressão lá saía, forçando espasmos musculares como quem simulava um orgasmo ali no meio do corredor. O efeito era o mesmo, existia a parte sonora mas as emoções ficavam perdidas pelo caminho, como se a imagem estivesse dessincronizada do som. Assistir àquilo ao vivo era muito estranho.

Da minha secretária, eu apreciava o espectáculo. Por vezes era penoso assistir ao teatro e levava-me a questionar porque é que nesta empresa a identidade chocava assim tanto com o profissionalismo.

Pelo andar da carruagem, temo que isto vá piorando e se torne numa monstruosa orgia de mentiras.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011 0 comentários

A caminho do escritório

No silêncio do sono profundo e no conforto proporcionado por uma cama quentinha, trespassam os primeiros raios de luz pela janela do quarto. O despertador toca e eu sem abrir os olhos estico o braço quase como um mecanismo automático e adio o animalejo mais cinco minutos. Impiedoso, volta à carga insistindo sonoramente que o tempo não pára, e nós comuns mortais, não podemos lutar contra ele.

Quem estou eu a enganar? Levanto-me apressadamente em direcção ao chuveiro, trato da higiene pessoal e arranco a todo o gás para tomar o pequeno-almoço. Termino os últimos apetrechos e dirijo-me a correr para a paragem do autocarro, da qual já sou conhecida pela maioria dos motoristas desta carreira, que lá me vão dando um jeitinho nos dias mais desassossegados.

Tão cedo e já há tanto trânsito. De onde vem toda esta gente apressada, que se aglomera sempre nos mesmos sítios e buzina destemidamente na mesma rotunda? Condutor enervado que se preze lá vai fazendo uns gestos amorosos com os dedos e mandando umas postas de pescada para fora da janela. O motorista do autocarro em que sigo, aproveitando-se do gigantesco tijolo que conduz impõe a supremacia do tamanho do veículo e acena um adeus pela janela, como se a teoria do prolongamento do pénis prevalecesse na prioridade da via rodoviária.

Por fim chego ao destino. No meio de uma fila de trânsito que se prepara para enfrentar uma perpendicular íngreme, encontra-se uma daquelas banheiras a cair aos bocados. Com os vidros da frente abertos e as colunas a vibrar ao máximo, a carrinha velha fazia concorrência a um autêntico carro de tuning equipado, só que invés de parecer uma discoteca ambulante, tocava um belo clássico de Bach, o Orchestral Suite No. 3, BWV 1068, Air.

Congelei o tempo e deixei-me ficar parada no passeio a admirar o contraste. Naquela espécie de inferno rodoviário acumulado de stress e má disposição matinal, emergia um clássico duma viatura pouco elegante conduzida por um indivíduo vestido informalmente de aparência pouco cuidada. Bom gosto, pensei eu, e segui rumo ao edifício do escritório com um sorriso no rosto, como se aquele momento me tivesse preenchido a alma de harmonia e levantado o astral para começar o longo dia de trabalho que se aproxima.

À entrada do edifício cumprimento o segurança, a empregada do minibar e os estranhos que me cruzo no elevador. Hoje calhou-me o elevador n.º 4, mas nada de surpresas. Preparo-me para entrar no escritório e um ar abafado faz-me sinal que é Segunda-Feira. Depressa irei precisar de uma boa dose de cafeína…

Chega a hora do almoço e dirijo-me para a copa, uma espécie de cubículo semi-concebido para os funcionários prepararem as suas refeições. Entretanto, desligo-me da conversa da treta ao meu redor e de repente, surge a ideia de iniciar uma espécie de diário das situações caricatas que se passam no dia-a-dia do escritório. Entusiasmada com a ideia e na pouca meia hora que me resta, caminho até ao jardim mais próximo do edifício onde relaxo um pouco. Começo a rabiscar as primeiras linhas mentalmente e concebo uma caderneta de episódios peculiarmente extraordinários, alguns tão ridículos que só me resta reflectir e chorar a rir, nestes dias do avesso.
sábado, 5 de novembro de 2011 0 comentários

Acerca

Os dias do avesso são uma espécie de relatos do quotidiano laboral, resultante da nossa experiência profissional e afins. Todas as situações descritas no blog, apesar de algumas parecerem ficção, aconteceram na realidade, à excepção do verdadeiro nome dos intervenientes, locais ou empresas que decidimos omitir por motivos de segurança.

O nosso objectivo é descrever situações pontuais tanto a nível pessoal como alheio, mas também promovemos a partilha de experiências dos nossos leitores desde que as mesmas sejam transmitidas de forma minimamente aceitável. 

Tantas histórias conhecemos dos nossos antepassados, as dificuldades, as relações supostamente mais ríspidas e direitos quase suprimidos, a realidade é que a era moderna também não se fica atrás, impondo-nos quase um manual de sobrevivência para o sucesso. 

O livro de reclamações para o leitor insatisfeito encontra-se à distância de um click e confirma-se ser um processo rápido, simples e sem burocracias.
 
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