No silêncio do sono profundo e no conforto proporcionado por uma cama quentinha, trespassam os primeiros raios de luz pela janela do quarto. O despertador toca e eu sem abrir os olhos estico o braço quase como um mecanismo automático e adio o animalejo mais cinco minutos. Impiedoso, volta à carga insistindo sonoramente que o tempo não pára, e nós comuns mortais, não podemos lutar contra ele.
Quem estou eu a enganar? Levanto-me apressadamente em direcção ao chuveiro, trato da higiene pessoal e arranco a todo o gás para tomar o pequeno-almoço. Termino os últimos apetrechos e dirijo-me a correr para a paragem do autocarro, da qual já sou conhecida pela maioria dos motoristas desta carreira, que lá me vão dando um jeitinho nos dias mais desassossegados.
Tão cedo e já há tanto trânsito. De onde vem toda esta gente apressada, que se aglomera sempre nos mesmos sítios e buzina destemidamente na mesma rotunda? Condutor enervado que se preze lá vai fazendo uns gestos amorosos com os dedos e mandando umas postas de pescada para fora da janela. O motorista do autocarro em que sigo, aproveitando-se do gigantesco tijolo que conduz impõe a supremacia do tamanho do veículo e acena um adeus pela janela, como se a teoria do prolongamento do pénis prevalecesse na prioridade da via rodoviária.
Por fim chego ao destino. No meio de uma fila de trânsito que se prepara para enfrentar uma perpendicular íngreme, encontra-se uma daquelas banheiras a cair aos bocados. Com os vidros da frente abertos e as colunas a vibrar ao máximo, a carrinha velha fazia concorrência a um autêntico carro de tuning equipado, só que invés de parecer uma discoteca ambulante, tocava um belo clássico de Bach, o Orchestral Suite No. 3, BWV 1068, Air.
Congelei o tempo e deixei-me ficar parada no passeio a admirar o contraste. Naquela espécie de inferno rodoviário acumulado de stress e má disposição matinal, emergia um clássico duma viatura pouco elegante conduzida por um indivíduo vestido informalmente de aparência pouco cuidada. Bom gosto, pensei eu, e segui rumo ao edifício do escritório com um sorriso no rosto, como se aquele momento me tivesse preenchido a alma de harmonia e levantado o astral para começar o longo dia de trabalho que se aproxima.
À entrada do edifício cumprimento o segurança, a empregada do minibar e os estranhos que me cruzo no elevador. Hoje calhou-me o elevador n.º 4, mas nada de surpresas. Preparo-me para entrar no escritório e um ar abafado faz-me sinal que é Segunda-Feira. Depressa irei precisar de uma boa dose de cafeína…
Chega a hora do almoço e dirijo-me para a copa, uma espécie de cubículo semi-concebido para os funcionários prepararem as suas refeições. Entretanto, desligo-me da conversa da treta ao meu redor e de repente, surge a ideia de iniciar uma espécie de diário das situações caricatas que se passam no dia-a-dia do escritório. Entusiasmada com a ideia e na pouca meia hora que me resta, caminho até ao jardim mais próximo do edifício onde relaxo um pouco. Começo a rabiscar as primeiras linhas mentalmente e concebo uma caderneta de episódios peculiarmente extraordinários, alguns tão ridículos que só me resta reflectir e chorar a rir, nestes dias do avesso.

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